Circulação de imagens.
A fotografia assim como o cinema aproxima-nos da morte, mostra-nos o quanto somos perenes e mutáveis. O cinema representa o estado não imortal da vida humana, o seu carácter efémero. A morte não esta desenhada em cada uma das imagens, mas inerente a elas, não só a morte física mas a morte de sentimento.
A sequencia final é tipo documentário como se as vistas e sons do vulgar mundo da não ficção fossem os mais agourentos. Não só ambos os protagonistas desaparecem, como também os confortos da história de ficção que os contêm. A arte de Antonioni é como o entrelaçado de consequências, de sequências e de efeitos temporais que decorrem de acontecimentos fora de campo.
Antonioni desenvolveu os seus filmes em duas direcções: uma exploração dos tempos mortos da banalidade quotidiana, e a partir de O Eclipse, um tratamento de situações limite que as leva até às paisagens desumanizadas e espaços esvaziados que vão absorver as personagens e acções.
Mestre nas cenas finais, excede-se em Profissão: Repórter (1975), onde toda a cena (uma só cena) da morte do personagem decorre durante sete minutos. Locke, cansado da sua vida e identidade, tenta livrar-se delas adquirindo uma outra identidade e uma outra vida. Os acontecimentos ao longo do filme apontam para a necessidade de Locke em estar noutro lugar, noutra vida. Todo o filme se desenrola como uma passagem, indicando o final, ou seja, a morte. Embora a morte nos parece uma experiência violenta, no filme esta aparece-nos como uma experiência tranquila. As personagens aparecem ali sem qualquer referência ao seu passado, talvez porque cada vez mais as pessoas têm menos passado (do que no passado). Estas personagens não necessitam de transportar qualquer bagagem, quer moral ou psicológica. Em todos os seus filmes, em especial neste, deixa o silêncio ter o seu lugar, desprezando a necessidade de encher os espaços vazios com música comentativa.
O filme dá-nos informação sobre acontecimentos passados por fragmentos, como acontece em relação ao acidente sofrido por Guilliana
Nos três filmes, o silêncio assume o papel principal. Foi do silêncio que surgiu um dos aspectos mais estudados no vocabulário cinematográfico: os tempos mortos. Onde superficialmente não ocorre nenhuma acção, mas onde os seus personagens sem estarem em diálogo dão-nos as emoções dentro de ‘si’.
Enquanto vouyeurs tiramos um pedaço de vida em cada filme que vemos. Congelar e roubar imagens “de vida” é sempre algo aliciante. Sendo a nossa experiência do real reconstituida através da imagem. As imagens encontram-se no “entre”, ou seja, entre o real vivido e a nossa percepção desse mesmo real. Entre o real e o seu desaparecimento.
A representação de algo apresenta-se como uma fixação provisória do representado, ate ao seu desaparecimento, por uma nova representação. E, por isso, tantas vezes associamos a imagem à morte, ou a representação à morte?
A possibilidade de reprodução, contribui para retirar ao objecto de representação ‘primeiro’, a sua fisicidade, tira-lhe a sua dimensão física, corpórea (o sua condição de objecto de culto) que o distinguia de outros possíveis objectos de representação. Doando-lhe desta forma um carácter de mera imagem, uma condição de imagem dupla, duplicada.
Hoje a pintura, talvez já não se apresente com a mesma condição, é concebida principalmente em termos de imagem. A sua dimensão dominante é a da imagem. Pois vivemos numa civilização da imagem e a realidade é cada vez mais substituída por imagens (ficcionais ou não).
Quando pensamos sobre uma pintura já não o fazemos em termos de harmonia, mas sim enquanto imagem. A fotografia retirou à pintura, à escultura (…) o seu valor autêntico na medida em que a tornou uma arte popular. A possibilidade da reprodução, pela fotografia, anulou a autenticidade da pintura. Aquela que era uma das artes mais prestigiadas.
Warhol trouxe de novo a pintura para o lugar de imagem. As fotografias que deram origem aos trabalhos serigrafados de Andy Warhol são um exemplo de como a fotografia se tornou um símbolo da democracia. Desde a cadeira eléctrica, a Elvis, acidentes de automóvel assim como objectos do quotidiano que chegam a objecto de arte democratizado. Tudo podia ser tema para a pintura, até imagens já existentes e sem a grandiosidade de temas da pintura clássica. Antes de Warhol, Manet e seus contemporâneos já o tinham feito numa outra dimensão, elevando os temas banais a objecto de reflexão e sujeito da sua pintura, onde os enquadramentos fotográficos tomavam já conta das suas produções. Desde a representação de um ser passante das ruas de Paris, até à mais solitária personagem escondida na escuridão de um café da época.
A fotografia democratizou a arte na medida em que permitiu produzir um número infindável de obras, permitindo a sua divulgação e publicação em livros, revistas.
Hoje vivemos numa sociedade da imagem, onde tudo é traduzido em imagem e tudo nos chega pela via do visual. Tudo é reproduzido, desde postais de todos os cantos do mundo que nos levam a sonhar e despertar um sentimento de posse e desejo (de os conhecer). A fotografia trouxe-nos este sentimento de posse do mundo, por sua vez reproduz o mundo em imagens que vemos em jornais, na televisão, no cinema, em livros, nas vitrines de lojas, em todo o lado e nas mais variadas formas. É possível dizer que hoje a mediatização é de tal ordem que quase somos obrigados a aprender a ver, a olhar novamente com olhos de ver, pois esta massificação da imagem leva-nos a acreditar que já tudo conhecemos e tudo já nos passou pelos olhos.
Quando tiramos uma fotografia é para recordar, para ficar para a história, mas o que na realidade acontece é congelar o momento e num outro plano congela a nossa capacidade de imaginar. Pois vamos sempre recorrer ao auxílio de uma imagem para recordar, imaginar, lembrar um acontecimento, uma cidade, uma pessoa.
O sentimento de posse, já referido, permitido pela fotografia, entende-se também na esfera da arte. Pois com a reprodução em imagem de obras de arte, como em catálogos de museus, visitas guiadas na Internet por vários museus do mundo, chegando ate nos um vasto numero de obras que se encontram em museus do outro lado do mundo. Conhecemos tudo através da imagem fotográfica.






