terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Sobre a imagem. No Cinema. Na Fotografia. As imagens da arte.

Como entender o processo de constituição de uma imagem. O que é uma imagem?

Circulação de imagens.

A fotografia assim como o cinema aproxima-nos da morte, mostra-nos o quanto somos perenes e mutáveis. O cinema representa o estado não imortal da vida humana, o seu carácter efémero. A morte não esta desenhada em cada uma das imagens, mas inerente a elas, não só a morte física mas a morte de sentimento. Em A Morte em Veneza de Luchino Visconti, o próprio título remete de imediato para a morte, que acontece no final com toda a sua fisicidade embora durante o filme ela esteja sempre presente na personagem do compositor Gustav Aschenbach. Um homem obcecado com a beleza perfeita. Incide aqui a morte da pessoa enquanto personagem, a morte do sentimento que tem em relação à beleza de uma outra personagem, morte por algo ou por alguém, por uma ideia ou desejo. A morte física só acontece no final do filme. O cinema fecha um ciclo. Numa outra dimensão a morte está também presente no final de O Eclipse de M. Antonioni e na grande maioria dos filmes que realizou, particularmente a morte de sentimento. O repetido uso dos temps mort (tempos mortos), onde a câmara corre para além do momento quando qualquer outro realizador teria cortado, é um sintoma de que o cinema filma o trabalho da morte, como um dia escreveu Jean Cocteau. Barthes defendia que este traço exclusivamente antonioniano era simplesmente uma extensão de cada insistência visual do artista sobre o poder do olhar. O realizador «olha (va) para as coisas de forma radical, até ao ponto da sua exaustão» contra toda a (convenção narrativa), estendendo os momentos (inexpressivos) de um episódio. O exemplo supremo é a sequência final de O Eclipse. Um momento inexpressivo que descreve na forma mais bela a relação humana, entre as personagens representadas por Mónica Vitti e Alain Delon, uma relação de puro desinteresse e incomunicabilidade, de que tantas vezes Antonioni é acusado. O título de O Eclipse assume uma qualidade simbólica. Transmite o sentido de como a vida emocional normal é perturbada, como param os sentimentos (da mesma forma como acontece um eclipse). O filme termina com um grande plano de luz, de cima. Antonioni perde o rasto das personagens, no final nenhuma comparece ao encontro combinado. Vemos imagens mundanas e vagamente sinistras, rastos de vapor no céu observados por dois homens num telhado, a cara perturbada de uma mulher por trás de uma vedação, um edifício inacabado interditado e, evidentemente, a esquina sem ninguém.
A sequencia final é tipo documentário como se as vistas e sons do vulgar mundo da não ficção fossem os mais agourentos. Não só ambos os protagonistas desaparecem, como também os confortos da história de ficção que os contêm. A arte de Antonioni é como o entrelaçado de consequências, de sequências e de efeitos temporais que decorrem de acontecimentos fora de campo.
Antonioni desenvolveu os seus filmes em duas direcções: uma exploração dos tempos mortos da banalidade quotidiana, e a partir de O Eclipse, um tratamento de situações limite que as leva até às paisagens desumanizadas e espaços esvaziados que vão absorver as personagens e acções.
Mestre nas cenas finais, excede-se em Profissão: Repórter (1975), onde toda a cena (uma só cena) da morte do personagem decorre durante sete minutos. Locke, cansado da sua vida e identidade, tenta livrar-se delas adquirindo uma outra identidade e uma outra vida. Os acontecimentos ao longo do filme apontam para a necessidade de Locke em estar noutro lugar, noutra vida. Todo o filme se desenrola como uma passagem, indicando o final, ou seja, a morte. Embora a morte nos parece uma experiência violenta, no filme esta aparece-nos como uma experiência tranquila. As personagens aparecem ali sem qualquer referência ao seu passado, talvez porque cada vez mais as pessoas têm menos passado (do que no passado). Estas personagens não necessitam de transportar qualquer bagagem, quer moral ou psicológica. Em todos os seus filmes, em especial neste, deixa o silêncio ter o seu lugar, desprezando a necessidade de encher os espaços vazios com música comentativa.
O filme dá-nos informação sobre acontecimentos passados por fragmentos, como acontece em relação ao acidente sofrido por Guilliana em O Deserto Vermelho.
Nos três filmes, o silêncio assume o papel principal. Foi do silêncio que surgiu um dos aspectos mais estudados no vocabulário cinematográfico: os tempos mortos. Onde superficialmente não ocorre nenhuma acção, mas onde os seus personagens sem estarem em diálogo dão-nos as emoções dentro de ‘si’.
Enquanto vouyeurs tiramos um pedaço de vida em cada filme que vemos. Congelar e roubar imagens “de vida” é sempre algo aliciante.
Sendo a nossa experiência do real reconstituida através da imagem. As imagens encontram-se no “entre”, ou seja, entre o real vivido e a nossa percepção desse mesmo real. Entre o real e o seu desaparecimento.
A representação de algo apresenta-se como uma fixação provisória do representado, ate ao seu desaparecimento, por uma nova representação. E, por isso, tantas vezes associamos a imagem à morte, ou a representação à morte?
A possibilidade de reprodução, contribui para retirar ao objecto de representação ‘primeiro’, a sua fisicidade, tira-lhe a sua dimensão física, corpórea (o sua condição de objecto de culto) que o distinguia de outros possíveis objectos de representação. Doando-lhe desta forma um carácter de mera imagem, uma condição de imagem dupla, duplicada.
Hoje a pintura, talvez já não se apresente com a mesma condição, é concebida principalmente em termos de imagem. A sua dimensão dominante é a da imagem. Pois vivemos numa civilização da imagem e a realidade é cada vez mais substituída por imagens (ficcionais ou não).
Quando pensamos sobre uma pintura já não o fazemos em termos de harmonia, mas sim enquanto imagem. A fotografia retirou à pintura, à escultura (…) o seu valor autêntico na medida em que a tornou uma arte popular. A possibilidade da reprodução, pela fotografia, anulou a autenticidade da pintura. Aquela que era uma das artes mais prestigiadas.
Warhol trouxe de novo a pintura para o lugar de imagem. As fotografias que deram origem aos trabalhos serigrafados de Andy Warhol são um exemplo de como a fotografia se tornou um símbolo da democracia. Desde a cadeira eléctrica, a Elvis, acidentes de automóvel assim como objectos do quotidiano que chegam a objecto de arte democratizado. Tudo podia ser tema para a pintura, até imagens já existentes e sem a grandiosidade de temas da pintura clássica. Antes de Warhol, Manet e seus contemporâneos já o tinham feito numa outra dimensão, elevando os temas banais a objecto de reflexão e sujeito da sua pintura, onde os enquadramentos fotográficos tomavam já conta das suas produções. Desde a representação de um ser passante das ruas de Paris, até à mais solitária personagem escondida na escuridão de um café da época.

A fotografia democratizou a arte na medida em que permitiu produzir um número infindável de obras, permitindo a sua divulgação e publicação em livros, revistas.

Hoje vivemos numa sociedade da imagem, onde tudo é traduzido em imagem e tudo nos chega pela via do visual. Tudo é reproduzido, desde postais de todos os cantos do mundo que nos levam a sonhar e despertar um sentimento de posse e desejo (de os conhecer). A fotografia trouxe-nos este sentimento de posse do mundo, por sua vez reproduz o mundo em imagens que vemos em jornais, na televisão, no cinema, em livros, nas vitrines de lojas, em todo o lado e nas mais variadas formas. É possível dizer que hoje a mediatização é de tal ordem que quase somos obrigados a aprender a ver, a olhar novamente com olhos de ver, pois esta massificação da imagem leva-nos a acreditar que já tudo conhecemos e tudo já nos passou pelos olhos.

Quando tiramos uma fotografia é para recordar, para ficar para a história, mas o que na realidade acontece é congelar o momento e num outro plano congela a nossa capacidade de imaginar. Pois vamos sempre recorrer ao auxílio de uma imagem para recordar, imaginar, lembrar um acontecimento, uma cidade, uma pessoa.

O sentimento de posse, já referido, permitido pela fotografia, entende-se também na esfera da arte. Pois com a reprodução em imagem de obras de arte, como em catálogos de museus, visitas guiadas na Internet por vários museus do mundo, chegando ate nos um vasto numero de obras que se encontram em museus do outro lado do mundo. Conhecemos tudo através da imagem fotográfica.

Sobre o olhar. Construção do olhar.


Sobre o olhar. Construção do olhar.

Sobre o olhar. Construção do olhar.

Desde a visão de George Orwell (1949) de um 1984 que a nossa noção do futuro (e cada vez mais do presente) tem sido marcada pelo medo de estarmos a ser observados, controlados e invadidos na nossa privacidade. Vigiados sobre formas que vão desde a observação em circuito fechado de televisão até à busca de informação digital que cobre tudo, desde compras ao uso de telemóveis. A vigilância tornou-se uma questão não apenas mas cada vez mais parte do quotidiano de toda a gente, como ainda é aproveitada enquanto tal. O filme de Michael Radford, baseado na obra de G. Orwell demonstra bem a penosa existência debaixo de vigilância de “O Grande Irmão”.
As dinâmicas de voyeurismo omnipresente, de captação de observação de dados não se limitam de modo algum aos E.U.A. Enquanto este cenário panóptico do século XXI ainda não é propriamente uma realidade, ele pode vir a sê-lo muito mais cedo do que imaginamos.
A relação entre cinema e vigilância é longa e complicada. O clássico filme de vigilância The Conversation (1974) de Francis Ford Coppola, onde Harry Caul, mestre da bisbilhotice, passa o filme empenhado em acções de vigilância instalando dispositivos nas casas dos vizinhos. A dada altura toma consciência de que o seu próprio espaço esta igualmente sob escuta. Numa busca desesperada para encontrar o implante tecnológico, destrói a sua casa, objecto a objecto. A vigilância tornou-se a condição da própria narração, passou a ser a assinatura formal da narração do filme. O filme não é só um veículo para contar uma história, mas igualmente um médium que documenta, que faz a crónica do que realmente acontece no mundo. Hoje partimos do princípio que todos os lugares têm sempre um aparelho de observação. Este estado constante de observação, de olhar panóptico e de voyeurismo onde o observador espreita segundo um desejo de invisibilidade e onde o observado não tem conhecimento do observador. Todo este estado de observação concede ao cidadão comum o seu momento de fama mediática à moda de Andy Warhol, dos seus quinze minutos de fama, mas hoje embora reduzida de 15 minutos a 15 segundos. Para lá do clássico prazer voyeurista de poder observar alguém que não se apercebe que esta a ser observado, sentimos uma atracção pela ostentação e contenção da vigilância.
O sistema panóptico, inventado por um jurista inglês, Jeremy Bentham, no fim do século XVIII, funciona como um modelo arquitectural e social de vigilância pela visibilidade directa que permite auto-controlar. O panóptico é uma verdadeira máquina de ver, controlar, experimentar, uma procura sobre os objectos de observação que são os sujeitos aprisionados, no caso da sua aplicação a prisões. (Este modelo resulta numa espécie de olho em planta). Este desejo de visão total, panóptica, desembocou da câmara escura, manifesta a mesma época, mas dentro de uma perspectiva especular e estética. A fotografia foi a primeira máquina moderna de vigilância, veio racionalizar o olhar ao transforma-lo num olhar técnico. Herdeira da perspectiva, ao racionalizar o olhar, vem alterar o modo como se pensa a reprodução do espaço.
Hoje o paradigma da vigilância está na origem do vídeo em circuito fechado e da retransmissão em directo.
Uma imagem é garantida por estar a acontecer no chamado “tempo real”? Podemos hoje ainda considerar a imagem de tempo real verdadeira, garantida? Pode esta imagem não estar susceptível a manipulações, ou seja, pós-produção? A questão temporal da imagem real de vigilância tornou-se uma nova linguagem no cinema do século XXI com o filme Time Code de Mike Figgis, onde é lançada uma narração de vigilância completamente nova. Relança o cinema enquanto posto de vigilância onde observamos as actividades de quatro fontes de “tempo real”. O ecrã encontra-se dividido em quatro, quatro sequências de tempo real, num esquema formal familiar ao dos sistemas de vigilância, onde cada uma destas quatro partes contem uma narrativa autónoma, mas ligadas entre si, num continuo take de 90 minutos. Quatro câmaras seguem o personagem ou grupo de personagens sem qualquer vestígio de cortes, ao longo dos 90 minutos sem interrupção. Poderá este filme ser acusado de excesso de informação dada pelas quatro sequências de imagens em simultâneo, mas a banda sonora ou os níveis de volume acabam por nos orientar para uma das narrativas. Estamos perante um novo tipo de realismo ou imagem falsa?
Ainda na linguagem cinematográfica, Film (1965) de Beckett, a câmara é introduzida dentro do próprio filme, onde Buster Keaton foge do olhar mortífero da câmara numa luta pela negação absoluta desse olhar. A própria escolha por Buster Keaton, ligado ao filme cómico torna ainda mais enigmática toda a narrativa. O olhar aqui substitui a possibilidade do toque, estamos perante ao olhar dentro de um olhar. Em The Conversatio, Harry passa o filme obcecado com a ideia de estar sob vigilância acabando por destruir a própria casa numa busca de um possível dispositivo de vigilância, em Film, Buster Keaton foge de todas as possibilidades de estar a ser observado, foge de qualquer tipo de olhar, até mesmo do olhar das fotografias de família que guarda, acabando por destruí-las uma a uma.

Film. Samuel Beckett

Na realização de Blow-Up (1966) Antonioni fica intrigado com o processo de ampliação da fotografia para detectar uma verdade insuspeita. O fotógrafo Thomas, desempenhado por David Hemmings, entre o trabalho de moda, álbum de fotografias da cidade, visitas a vizinhos e amigos, fotografa uma jovem abraçada a um homem mais velho num parque de Londres. Quando regressa a casa é abordado por essa mesma mulher que lhe pede os negativos. Acaba por levar um rolo vazio ficando o fotógrafo com a posse das suas fotografias. Intrigado, faz várias ampliações das fotografias e descobre olhares enigmáticos por parte da mulher que abraça o homem, assim como a presença de um homem entre os arbustos sob a posse de uma arma. Pensa ter evitado um crime por ter tirado aquelas fotografias. Mais tarde volta ao parque e descobre o cadáver.
A câmara de Antonioni em movimento está aliada à máquina fotográfica da personagem, numa inspecção das imagens. Mais uma vez a máquina fotográfica é usada como uma verdadeira máquina de ver, ver além do olho nu, através das ampliações feitas pelo fotógrafo. Pensa fotografar um momento banal da vida de Londres estando na passagem entre fotógrafo a detective.
Hitchcock foca esta questão em Janela Indiscreta, num olhar de voyeur profissional do fotógrafo L.B. Jeffries, que se encontra em casa devido a um acidente de trabalho ocupando o seu tempo a espreitar pela janela a vida dos vizinhos. Mas eis que suspeita de um assassínio no prédio em frente, dando assim início a uma investigação, onde se questiona o voyeurismo de Jeffries, do espectador e do próprio Hitchcock. Espreitar a vida dos outros é frequente em Hitchcock, aqui Jeffries com o seu olhar atento vê pequenas historias, um espelho do mundo. O assassino ao sentir-se observado pelo olhar do fotógrafo ou pelo olhar do mesmo através da sua máquina fotográfica (utilizada como auxilio ao próprio olhar) descoberto, tenta matar Jeffries, do outro lado do pátio. É aqui contextualizado o voyeurismo no cinema à moda de Hitchcock, onde mais uma vez se faz alusão à máquina fotográfica como uma verdadeira máquina de ver.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007